Da ética e da estética
Sei do forte impacto estético que imagens de guerra, explosões, centrais nucleares, cogumelos atómicos, aviões que atravessam edifícios, os rostos dos corpos que sofrem, exercem em mim. Não lhes resgato qualquer espécie de prazer sádico nem sou um tipo violento. Mas também não tento limpar o cadastro moral a qualquer custo (o de uma boa conversa, por exemplo); dizendo que a apreciação é clivada do sofrimento que as situações representam ou deixam entrever. Não as desejo, porque não me as desejo nem constituem uma preferencial fonte de prazer obscuro; mas não me escondo por detrás de uma consideração redentora, obrigando-me a suprimir da consciência toda a beleza que observar a destruição, a ameaça ou a ambiguidade das facas com dois gumes pode conter. O mundo também é o Homem e o Homem também é isto.

Michael Kenna
4 daguerreótipos:
do impacto não há dúvidas, só não sei se lhe chamo estética, preocuro outra palavra,
daí... tb pode ser um preconceito meu em utilizar a expressão estética relacionado com testemunhas - photos, filmes, pintura, escrita - dos sofrimentos e atrocidades. a verdade é que dou comigo a dizer "espectacular!" (espectáculo?) "lindo!" (!!!)perante as mesmas
:/
sintonizo ;)
o Wilde afirmava que a vida emita a arte.
«mas não me escondo por detrás de uma consideração redentora, obrigando-me a suprimir da consciência toda a beleza que observar a destruição, a ameaça ou a ambiguidade das facas com dois gumes pode conter»
tão perfeito e completo que quase nem valia a pena dizer mais nada. subscrevo. também sou das que acredita que a arte, tendo criado um vida para si própria, é imitada pela vida que vivemos à margem dela. também eu me entrego ao fascínio do caos, à contemplação estética da destruição. sem problemas morais.
uma coisa curiosa de se ver é o trabalho plástico/fotográfico de Joel-Peter Witkin. é um horror belíssimo.
Ora aí está um bom exemplo.
Enviar um comentário
<< Home