sexta-feira, julho 15

No rest for the wicked

Blog em estado de de-composição. Ainda não sei como foi (ou se foi, sequer...), ou como vai ser. Vai deixar de ser e vai continuar a ser, resta saber o quê e como.


Este blog termina aqui termina aqui.
Obrigado a todos e a mim.


Reagi logo à sirene; galguei a alameda e contornei os olmos incandescentes. A noite estava um forno e em frente à padaria transpirava-lhe o corpo todo. Parei para lhe acender o cigarro. O vestido parecia explodir-lhe à medida que o peito desabafava, velado e revelado a farinha de tons vermelhos com vida própria. Percebi nesse reflexo o inferno que ia pelos montes em volta da cidade. Quando uma gota de suor lhe escorregou da têmpora pelo pescoço e rasgou um canal vale abaixo não consegui pensar mais nada senão que ela era quem ardia e era eu quem precisava de ser salvo.


Passar e respirar ruas molhadas.


Está um dia lindo. Chove frio e nevoeiro. Vou andar de boca aberta: de espanto, para me limpar por dentro e para me fazer de tolo. Assim ninguém me chateia.

Pequena Sincronicidade

Decidi ir escrevendo num guardanapo o que vi enquanto te via.
Quando pediste o café curto e esvaziaste o pacote de açúcar no cinzeiro percebi que alguma coisa séria te preocupava, apesar da gargalhada. Alguma coisa importante; não me parece que consigas permitir esse momento de delícia a quem te observa - mesmo que à distância de umas boas três filas de mesas e cadeiras - consciente de que o fazes.


Nesse fim de tarde estavas húmida, mas o teu impermeável, no bengaleiro, encharcado. Uma boa compra. Sorrias se davas uma passa realmente saborosa. Nunca tinha visto ninguém, com mais de 15 anos de cigarros, pelo menos, relacionar-se assim com eles. A maior parte dos fumadores já não sente o que fuma. Aliás... A maior parte dos fumadores já não sabe bem se tem um cigarro aceso ou se precisa de acender outro.


Durante vinte minutos não paraste de escrever, que eu vi. Quando te certificaste que as mãos estavam tão secas quanto iriam ficar e quanto a chávena poderia contribuir, desdobraste um guardanapo de papel, fizeste dele uma folha quadrada e começaste a rabiscar. Quando finalmente terminaste chegou outro café, que ficou gelado e que tinhas pedido porque te apeteceu o pequeno chocolate que trazia.


Deixaste duas moedas perto da chávena mas não no pires. Em cima da mesa. Levantaste-te e sorriste para o dono, atrás do balcão. Passaste por mim e entregaste-me o guardanapo enrugado numa bola. Vestiste o impermeável e entraste na rua, onde continuava a chover.


Pedi a conta e guardei o livro que não tinha chegado a abrir. Desdobrei o guardanapo e li o que tinhas estado a escrever. Se bem percebi a tua letra, dizia:




Decidiste ir escrevendo num guardanapo o que viste enquanto me vias. Quando pedi o café curto e esvaziei o pacote de açúcar no cinzeiro percebeste que alguma coisa séria me preocupava, apesar da gargalhada. Alguma coisa importante; não te parece que eu consiga permitir esse momento de delícia a quem me observa - mesmo que à distância de umas boas três filas de mesas e cadeiras - consciente de que o faço.


Nesse fim de tarde estava húmida, mas o meu impermeável, no bengaleiro, encharcado. Uma boa compra. Sorria se dava uma passa realmente saborosa. Nunca tinhas visto ninguém, com mais de 15 anos de cigarros, pelo menos, relacionar-se assim com eles. A maior parte dos fumadores já não sente o que fuma. Aliás... A maior parte dos fumadores já não sabe bem se tem um cigarro aceso ou se precisa de acender outro.


Durante vinte minutos não parei de escrever, que tu viste. Quando me certifiquei que tinha as mãos tão secas quanto iriam ficar e quanto a chávena poderia contribuír, desdobrei um guardanapo de papel, fiz dele uma folha quadrada e comecei a rabiscar. Quando terminei chegou outro café, que ficou gelado e que tinha pedido porque me apeteceu o pequeno chocolate que trazia.


Deixei duas moedas perto da chávena mas não no pires. Em cima da mesa. Levantei-me e sorri para o dono, atrás do balcão. Passei por ti e entreguei-te o guardanapo enrugado numa bola. Vesti o impermeável e entrei na rua, onde continuava a chover.


Pediste a conta e guardaste o livro que não tinhas chegado a abrir. Desdobraste o guardanapo e leste o que eu tinha estado a escrever. Ficaste tão perturbado que achas que não tens a certeza de ter percebido a minha letra.

A respeitosa repetição

Desenhas pedras sobrepostas.
Na aridez da tirania da metáfora
Animas a infertilidade.

O Idiota

Vendeu pouco mas vendeu tudo.
Anos ininterruptos de fantasias projectadas em solidão e oceanos, ilhas generosas e pores-do-sol irreais, faróis abandonados e sinuosos portos de rocha, músculos esculpidos por marés tresloucadas, cabelo aloirado e depois branco e depois o lugar do cabelo, ventos incompreensíveis, tubarões amigos, baleias esfomeadas, galápagos, gaivotas, pelicanos, pirilampos, gambuzinos.

Vendeu tudo, que não era quase nada, conseguiu o barco.
Escreveu ao Ministério das Finanças e ao da Segurança Social, com registo e avisos de recepção.
Embarcou-se e aos enlatados, garrafas do Luso, primeiros e segundos socorros, livros dos desertos mais importantes (sonhava agora em conhecer os desertos mais importantes), noventa e oito rolos de papel higiénico, dez escovas e tubos de dentífrico com extracto de alga, máquina fotográfica e trinta rolos de película a cores. Quinze a preto-e-branco.
Morreu contra uma traineira, duas horas depois de zarpar água fora. O idiota nunca soube travar.


Conto chegar a Phoebe. Já a vejo, esburacada - A Brilhante; chamam-lhe. Paguei para que me garantissem que por lá existe, numa cratera encoberta, entre os milhões de idiotas adormecidos que vagueiam pelos canais, uma mulher que imagina estar viva. Só espero que perceba que espera.


Nunca de lá tinha saido (de Huya; ali em baixo), mas fartei-me da humidade. Corrói-me os ossos e atrasa-me o débito sináptico. Agora, na barca, não me angustio com a solidão. Não tenho ninguém à volta.


O caminho também se escreve.
Abandonei Huya há coisa de um azul. Ou dois. Nunca fui muito bom com o tempo que passa. Diz-se que no oitavo planeta da evolução humana, os relógios estiveram tão disseminados como os alienogénios de hoje. Penso que nunca terão tido distribuição gratuita, seja lá o que "gratuito" queira dizer. As pessoas podiam contar ínfimas fracções de tempo. Chamavam-lhes "horas", "minutos", "segundos". Pelas minhas contas, o Segundo era o primeiro tempo inteiro. Um piscar de olhos, uma infância. Que maravilha.

Inner Self #1


Naoki Mitsuse


Não consigo parar de tocar. Não posso parar de tocar. Não me deixam parar de tocar. Nunca pararei de tocar. Se parar de tocar começo a pensar. Não posso pensar. Não me deixam pensar. Não me posso deixar pensar. Se parar de tocar abstraio-me e começo a pensar que não posso parar de tocar. E distraio-me. E eu não posso parar de tocar.

Inner Self #2


Misha Gordin | Shout

Naoki Mitsuse

Inner Self #3


Naoki Mitsuse


Não sei onde foste buscar essa técnica mas a suspensão é perfeita. Espanto-me se te vejo mais leve do que o ar, se frustras Newton com um encolher de ombros mas sem o sorriso da carmelita contemplativa de olhar vago e místico. E eu plúmbeo, bizarro e febril, um deus do desamparo. Nem os pés abdicam entre passos de sentirem o chão que pisam, quanto mais a cabeça. Sou um breakdancer em eterno swing craneano; sem estrado, gorro ou boné. As ideias e o escalpe em ferida aberta, rastos de seiva e sangue rua abaixo. Tu, albatroz, existes como as nuvens, deixas cair uma lágrima e choves sem querer.

Prescrição

Leite quente com meia colher de chocolate e um cigarro à janela para o monte-de-frente e para marte-de-cima, com a roupa de andar por casa mais ridícula do mundo e umas meias velhas de cento e cinquenta anos-luz.

Counting radioactive teardrops...

Old Demotic


Balthus | La rue | 1933-35


Chovem canivetes abertos.
Não é a primeira vez que chovem canivetes, em Old Demotic. Ninguém liga, apesar dos esgares de enfado.
Já choveram todo o tipo de coisas. Os velhos lembram-se de se terem esquecido daquele ano longínquo em que choveram mulheres. Conta-se a alegria que foi: as poucas que não morreram, amparadas pelos toldos das lojas ou absorvidas pelas águas do rio passaram a integrar a pacata comunidade. Não foi fácil porque eram especialmente belas e muitos casamentos fossilizados começaram a exibir brechas estruturais. Mas desta vez chovem canivetes abertos.


As estradas animam-se de faíscas ao contacto com as lâminas. Não é que tenha morrido muita gente; numa terra como esta as pessoas habituam-se a caminhar debaixo das protecções que as casas oferecem por imposição autárquica. Os estragos materiais, esses sim, foram imensos: automóveis, semáforos, uma instalação de esculturas em papel e plasticina no recreio da escola. Arruinados.
Naquela noite, como em todas as que se sucedem aos dias em que chovem coisas pesadas, haverá reunião popular espontânea. Discursarão os mesmos de sempre: os invejosos, o ridículo, os avarentos, os advogados, o ingénuo e o padre. As reuniões da chuva foram sempre um bom terreno para aprofundar conhecimentos, iniciar relações, romper ou propor negócios mirabolantes. Raramente se decide o que quer que seja sobre o produto acumulado daquilo que cai dos céus. Old Demotic possui, a cercá-la, uma vasta cordilheira de resíduos; alguns valiosíssimos, como quando choveram anéis da Opus Dei, outros (a maior parte) o autêntico refugo dos deuses.


Frank, o radialista, passou o dia suspeitoso. Pouco falou a entremear as longas e enfadonhas peças de rock progressivo que insiste em difundir pelos lares e lojas daquela terra. Frank cogita, há já várias horas que se distingue claramente a 'ruga do intrigado', a circunvolução que lhe une as poderosas sobrancelhas como a estrutura de uns óculos de que nunca precisará porque, como diremos, o fim está próximo. Não compreende porque raios os canivetes abertos caem com a lâmina para baixo, se o corpo do objecto onde a mesma se recolhe é incomparavelmente mais pesado.


Frank ainda não sabe, a comunidade muito menos, mas o fim está próximo. Deus começa a perder as estribeiras. Depois de anos, séculos a pilheriar Old Demotic, prepara-se para ignorar todos os mais básicos princípios da decência, que é o que chamamos por ser o que acontece quando as leis da lógica de um povo são subvertidas.



Respeito a Balthus, Borges, Calvino e a Joshua Brand e John Falsey, criadores de "Northern Exposure".

Lembro-me vagamente

de música viciante, dos livros perigosos, de gente sedutora, de símbolos ao deus Dará, das cidades obrigatórias, das cidades e do desejo, das cidades e da memória, das cidades e dos sinais, das cidades e das trocas, das cidades e dos olhos, das cidades e dos nomes, das cidades e dos mortos, das cidades ocultas, das cidades contínuas, das cidades subtis, das cidades invisíveis, dos abraços, de beijos, dos sorrisos, do choro convulsivo, de cinema tranquilo, de cinema desesperado, dos cinemas bonitos, de minúsculos pormenores, de enormes evidências, do medo, do conforto, do medo do conforto, da segurança de fotografias amarelas.

Fim



-Ouves? A terra a chamar-me.
-A terra? Não percebo. Como é que sabes?
-É a terra a chamar-me.
-Mantém-te viva, vai valer a pena. Vamos ouvir o Sol a arder.
Não te podes esquecer de respirar.


Sérgio Ranalli (fotos)


Morreu Maria, na noite do dia em que a manhã choveu desde madrugada, ao recusar-se continuar para um bando de bêbados inúteis com histórias de abandonos, arritmias e filhos retalhados por dentro. Quanto mais sabotava a música melhor lhe saíam as dores; a banda calou-se, pareceu ficar um sax, tímido, como eco dos seus murmúrios, mas não havia sax nenhum, era ela que abafava o lamento arrancando cabelo atrás de cabelo. Stormy Weather, Maria.


Maria do post de baixo oferecia opulentas formas de mulher ao mundo, quase tudo no sítio. Procurava amor, mas um pouco de sexo já não seria mau. Os homens pediam-lhe longos orgasmos na forma dos blues do Delta. «O delta!», estremecia (o delta estremecia-lhe) Maria. Que cruz, a tua voz.


Maria, quando cantava, cantava bem. Quando cantava, fazia calor. Mas ela nem sempre cantava, para desespero de quem tremia ao morrer.

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