segunda-feira, outubro 25

Styx






Plutão e Charon no limite do sistema solar, Cintura de Kuiper adentro. Charon tinha a função de conduzir a travessia das almas dos mortos através do Styx, um rio das regiões subterrâneas infernais.



domingo, outubro 24

O Idiota

Vendeu pouco mas vendeu tudo.
Anos ininterruptos de fantasias projectadas em solidão e oceanos, ilhas generosas e pores-do-sol irreais, faróis abandonados e sinuosos portos de rocha, músculos esculpidos por marés tresloucadas, cabelo aloirado e depois branco e depois o lugar do cabelo, ventos incompreensíveis, tubarões amigos, baleias esfomeadas, galápagos, gaivotas, pelicanos, pirilampos, gambuzinos.

Vendeu tudo, que não era quase nada, conseguiu o barco.
Escreveu ao Ministério das Finanças e ao da Segurança Social, com registo e avisos de recepção.
Embarcou-se e aos enlatados, garrafas do Luso, primeiros e segundos socorros, livros dos desertos mais importantes (sonhava agora em conhecer os desertos mais importantes), noventa e oito rolos de papel higiénico, dez escovas e tubos de dentífrico com extracto de alga, máquina fotográfica e trinta rolos de película a cores. Quinze a preto-e-branco.
Morreu contra uma traineira, duas horas depois de zarpar água fora. O idiota nunca soube travar.

sexta-feira, outubro 22

"(...) because there were no trees at Shakespeare."

The Blues and the Abstract Truth


Anton Corbijn | John Lee Hooker's Hand

terça-feira, outubro 19

Badtimes Story

De um momento para o outro ofereceram o Rectângulo de Pandora ao Peter Pan. Ficou muito contente! Toda a vida sonhou com uma coisa assim.
Mas também ficou terrivelmente assustado... Lá no fundo ele sabia que nunca se tinha portado muito bem, que não merecia tamanha ventura, e passou a viver no terror da descoberta. Começou a dormir muito mal, sempre agarrado à tal prenda. Batia nos meninos que lhe pediam para a ver. Juravam-lhe que não lha queriam tirar, só queriam ter a certeza de que ele não a estragava; mas o Peter desconfiava (com alguma razão, diga-se; a garotada era esquisita).
Entretanto, o padrasto do Peter começou a pensar seriamente no sarilho em que metera a família, quando lhe permitiu ficar com o espólio do irmão, depois da saída deste para o Programa Erasmus.
Horrorizado com a perspectiva da incongruência (esse pecado mortal), o padrasto lá foi vivendo; dia-a-dia, casa-trabalho, trabalho-casa; rogando uma reforma tranquila.
Coisa boa foi voltarem a vê-lo no Café. Nos dias de futebol reencontra alguns amigos, todos com mulheres que não abdicam de desasseis segundos da novela. Mas como poderá ele explicar-lhes que a televisão lá de casa está a soldo de um puto deslumbrado com uma PlayStation?

quinta-feira, outubro 14

A respeitosa repetição

Desenhas pedras sobrepostas.
Na aridez da tirania da metáfora
Animas a infertilidade.

sábado, outubro 9

O criador e a prestidigitação (ex-machina)


M.C.Escher | dewdrop


Sam Javanrough | raindrop on leaf

quinta-feira, outubro 7

Pequena Sincronicidade

Decidi ir escrevendo num guardanapo o que vi enquanto te via.
Quando pediste o café curto e esvaziaste o pacote de açúcar no cinzeiro percebi que alguma coisa séria te preocupava, apesar da gargalhada. Alguma coisa importante; não me parece que consigas permitir esse momento de delícia a quem te observa - mesmo que à distância de umas boas três filas de mesas e cadeiras - consciente de que o fazes.


Nesse fim de tarde estavas húmida, mas o teu impermeável, no bengaleiro, encharcado. Uma boa compra. Sorrias se davas uma passa realmente saborosa. Nunca tinha visto ninguém, com mais de 15 anos de cigarros, pelo menos, relacionar-se assim com eles. A maior parte dos fumadores já não sente o que fuma. Aliás... A maior parte dos fumadores já não sabe bem se tem um cigarro aceso ou se precisa de acender outro.


Durante vinte minutos não paraste de escrever, que eu vi. Quando te certificaste que as mãos estavam tão secas quanto iriam ficar e quanto a chávena poderia contribuir, desdobraste um guardanapo de papel, fizeste dele uma folha quadrada e começaste a rabiscar. Quando finalmente terminaste chegou outro café, que ficou gelado e que tinhas pedido porque te apeteceu o pequeno chocolate que trazia.


Deixaste duas moedas perto da chávena mas não no pires. Em cima da mesa. Levantaste-te e sorriste para o dono, atrás do balcão. Passaste por mim e entregaste-me o guardanapo enrugado numa bola. Vestiste o impermeável e entraste na rua, onde continuava a chover.


Pedi a conta e guardei o livro que não tinha chegado a abrir. Desdobrei o guardanapo e li o que tinhas estado a escrever. Se bem percebi a tua letra, dizia:




Decidiste ir escrevendo num guardanapo o que viste enquanto me vias. Quando pedi o café curto e esvaziei o pacote de açúcar no cinzeiro percebeste que alguma coisa séria me preocupava, apesar da gargalhada. Alguma coisa importante; não te parece que eu consiga permitir esse momento de delícia a quem me observa - mesmo que à distância de umas boas três filas de mesas e cadeiras - consciente de que o faço.


Nesse fim de tarde estava húmida, mas o meu impermeável, no bengaleiro, encharcado. Uma boa compra. Sorria se dava uma passa realmente saborosa. Nunca tinhas visto ninguém, com mais de 15 anos de cigarros, pelo menos, relacionar-se assim com eles. A maior parte dos fumadores já não sente o que fuma. Aliás... A maior parte dos fumadores já não sabe bem se tem um cigarro aceso ou se precisa de acender outro.


Durante vinte minutos não parei de escrever, que tu viste. Quando me certifiquei que tinha as mãos tão secas quanto iriam ficar e quanto a chávena poderia contribuír, desdobrei um guardanapo de papel, fiz dele uma folha quadrada e comecei a rabiscar. Quando terminei chegou outro café, que ficou gelado e que tinha pedido porque me apeteceu o pequeno chocolate que trazia.


Deixei duas moedas perto da chávena mas não no pires. Em cima da mesa. Levantei-me e sorri para o dono, atrás do balcão. Passei por ti e entreguei-te o guardanapo enrugado numa bola. Vesti o impermeável e entrei na rua, onde continuava a chover.


Pediste a conta e guardaste o livro que não tinhas chegado a abrir. Desdobraste o guardanapo e leste o que eu tinha estado a escrever. Ficaste tão perturbado que achas que não tens a certeza de ter percebido a minha letra.


terça-feira, outubro 5

A horse is a horse; of course, of course


Hans Van Der Pol | Horse

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