quarta-feira, novembro 3

O Interno Retorno

Às vezes parece que as árvores têm braços ou que as nuvens têm gente. Não têm; nós é que sonhamos com tudo e com nada.

Se ouvirmos, só, estragamos pouco:

longe existem, neste e em todos os momentos desde que existem, os anéis de Saturno, a magnetosfera de Júpiter, a da Ganymede de Galileo antes de qualquer um de nós; existe o Sol e buracos negros porque as coisas não começam nem acabam; pulsares, restos cósmicos e um infinito - não interessam as teorias - Big Bang.

Aqui em cima sobrevivem florestas tropicais. Formam-se tempestades com que não sonhamos. De vez em quando lembramo-nos do vento e do granizo. Não nos lembramos das monções, de tornados e furacões, nem da areia ou da neve pelos ares.

De lá de baixo ouve-se tudo - como sabemos desde que descobrimos a casa com a cabeça mergulhada na banheira: terramotos, vulcões, bolhas de ar, barcos e coisas sem nome.

Mas, lá em baixo, como aqui em cima e muito longe, nunca compreenderemos nada. Nunca nos chamaremos como as baleias se chamam, e elas nem sequer se chamam baleias.



___________________________

Este foi um dos primeiros posts que fiz para a Janela. Apesar de me ter juntado ao pessoal já a Lua ia alta, ainda foi possível blogar onde só me imaginei a aprender. Espreitar à Janela, de dentro para fora, foi muito bom e irrepetível.
Obrigado Ana, Cristina e restante comandita.

3 daguerreótipos:

Blogger Calamity Spot said...

acho que nunca li nada tão completo. digo mais: total. ia destacar a parte que gostei mais, que me arrepiou os cabelinhos da nuca, mas depois percebi que tinha o texto inteiro destacado. isto é lindíssimo. é o deslumbramento puro. :)*

12:20 da manhã  
Blogger margarete said...

faço minhas as palavras da insensata, é sp bom voltar a este texto

10:08 da tarde  
Blogger Luis Gaspar said...

O eterno retorno: a ideia do kitsch ser vomitado para ser adorado como o metabolismo em puro sacrifício onanístico. Parabéns.

11:11 da tarde  

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