terça-feira, janeiro 25


Digo-lhe para olhar menos para o rosto das pessoas se não os entende e mais para as coisas, tal como eu, quando cheguei à América, contemplava os anúncios de néon e deduzia que tipo de país era. Tiro os cigarros do bolso, «vês», digo-lhe, «estes são os cigarros produzidos em Sarajevo, e tu sabes porque é que a caixa é completamente branca?», ele diz que não com a cabeça, «é branca porque já não existe nenhum lugar onde se possam imprimir os rótulos para as caixas. Tu agora vais concluir que nós somos coitados e infelizes porque nem sequer podemos ter nada escrito nos nossos maços de tabaco, concluirás isto porque não sabes olhar.» Começo a desmanchar a caixa, sei que por dentro não é branca, que pode ser o invólucro de sabonete para crianças virado do avesso, uma parte de um cartaz de uma sessão cinematográfica, uma parte de um anúncio de sapatos. Também sinto curiosidade com o que está lá dentro, vejo-o e sempre me surpreendo, e o americano está igualmente curioso, embora não faça a mínima ideia do que estou a fazer. Desmanchei assim a caixa e quase caí redondo. Lá dentro reluzia o invólucro de Marlboro, aquele velho Marlboro Sarajevo, o americano abriu a boca, eu soltei um palavrão, não sabia que dizer mais.


Miljenko Jergovic
Marlboro Sarajevo

3 daguerreótipos:

Blogger kutusov said...

Febre (24-2-2005. Há espera... sim, com ?H?...)

Amor e ódio
Perdoo-te, amo-te e odeio-te
Persigo-me na noite
De cigarro no canto da boca

Estou preso nesta loucura
Não ouço quem do outro lado me chama
De esperança nos olhos
Olhos com menos dores que as tuas

A dor nos teus olhos...
Gosto de ti, porque ma emprestas...
Olho fundo nesse sem fundo
Abandono-me nesse abismo

Estamos os dois unidos
Pelo perdão do não perdoável
Pelo possível impossível
Sem tempo e sem lugar

O que hoje foi, ontem é
E amanhã telefonei para saber como estavas
Procuro-te no meu tecto, na dança das sombras deste lume
E não, não falo das velas que acendi para o meu enterro

Por um momento olho para o lado
Vejo a minha amante
Prolongo um momento para a olhar melhor
A sua forma e a sua cor, também o seu sabor

Fecho os olhos para a ver melhor
Porque nela estás só tu
Sem mim nada mais vive que a tua ausência
A tua presença insinuada na distância

Vejo os teus olhos sempre que fecho os meus
Porque os tens tu, se não vês?
Para que te servem senão para me prender?
E que mal tem isso?

Digo-to eu! Não caio eu só na rede
Ele também, e mais o outro
Ah! E já agora aquele também
E sabias? Tu igualmente

Mas voltando á minha amante
Aquela que comigo está na solidão
No ódio e no perdão
Com os amigos e na escuridão

Amante quer dizer que se ama?
Aquela a quem se ama?
Não, não me parece
É mais a invocação da verdadeira

Vingança por dor no sentir
Dor que rasga a mentira e a impossibilita
Olho a direito para ela agora.
Parada na luz, a minha amante

Nada me cobra, mas começa a prender-me
É lisa no toque, fria também
Mas aquece por dentro
Arrefece também

Trás desespero e por isso gosto dela
Retira-me o véu, mesmo toldando-me
É verde por fora, e castanha por dentro
Diz lá que tem 40º graus.



Acham que não tem nada a ver? E seu vos disser que tem? :-)

2:13 da manhã  
Blogger Paulo said...

Se tu disseres que tem eu acredito...

2:44 da manhã  
Anonymous Gabriel said...

ei! isso é verdade? tem foto? tb fiquei curioso ?:P

9:37 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home

Blogs:

Silêncio - Húmus - Little Black Spot - Coisa Ruim - RainSong - Acknowledge Yourself - Citador - Laranja Amarga - O mundo à minha procura - Via da Verdade - Elasticidade - A Magnólia - Chafarica Iconoclasta - Que farei quando tudo arde? - Almocreve das Petas - Um Blog Sobre Kleist - Welcome to Elsinore - Eternuridade - Touch of Evil - Todos os Guarda-Chuvas de Londres - As Ruínas Circulares - Substrato - Inner Mirror - Espelhos Velados - À Espera dos Bárbaros - Vadiar - Respirar o mesmo ar - Bloguítica - Estrela Cansada - JPCoutinho - Juramento Sem Bandeira - Viva Espanha - Torneiras de Freud - Crónicas da Terra - Desassossegada - Homem a Dias - Rua da Judiaria - Roda Livre - Tempo Dual - Triciclo Feliz - Ponto em Fuga - Dragoscópio - A Natureza do Mal - Portugal dos Pequeninos - Avatares de Desejo - Fora do Mundo - Universos Desfeitos - A aba de Heisenberg - Reflexos de Azul Eléctrico - Charutos, Jazz, Uísque e Blog - Daily Dose of Imagery - Vitriolica - Mola de Roupa - The Serendipitous Cacophonies - As Barbas do Hernani - O Inimigo Musical - you've been flirting away - Carrocel Estelar - Dias com árvores - trato-me por tu - um mundo imaginado - O Estrelado - Um Lugar Chamado Perdição - a (in)visibilidade das coisas - Abóbora-Menina - Ardeu a Viola - o último metro - Contra a Corrente - such beautiful poses - VitorRua's Weblog - Callas em vez de televisão - Pula Pula Pulga - Viver todos os dias cansa - No Arame - Quartzo, Feldspato & Mica - Universos Desfeitos - Linha dos Nodos - zé aquilino santos, o passageiro... - Last Tapes - Random Precision - Gotas d'Água - Bodião Reticulado - O Talento da Mediocridade - A vida é larga - Policromia - Vazio - Diário de Bordo - Blog do Desassossego - Glooka - ante mare, undae - A razão tem sempre cliente - Instalação - Paredes Oblíquas - Voz do Deserto - Onde eu estou. - No Bairro do Aleixo - Polegadas - Silvia Sem Filtro - H Gasolim Ultramarino - educação sentimental - Escrúpulos Precários - Paralelo.36 - 10 Segundos - Estórias D'Embalar - silsmaria - Eros & Thanatos - A arte da fuga - As Aranhas - Cidade Surpreendente - a forma do jazz - Da mão para a boca - sob a Terra - Post Secret

Arquivos:

:Setembro 2004::Outubro 2004::Novembro 2004::Dezembro 2004::Janeiro 2005::Fevereiro 2005::Março 2005::Abril 2005::Maio 2005::Junho 2005::Julho 2005: